POWER_HEART // LIVRO_01 // CAPÍTULO_01

Recém-chegada

A DESCOBERTA DA ALMA · RODOLFO BERLESE

A liberdade dos seres vivos, de fazerem suas próprias escolhas, é limitada por outros seres.

O silêncio da noite poderia ser mantido na praia, se não fosse pela embarcação lotada que acabará de chegar na costa do país de Lizar.

Do lado oposto, aguardando pacientemente, um grupo de algozes já cientes desta chegada. Carrascos, cumpriam ordens, então, não detiveram-se em eliminar aqueles que ousavam sair da embarcação.

Ou quase todos.

Uma pequena fada de pelos e asas esmeraldas teve sorte de não ser atingida pelo fogo, mas isso significava agora atravessar a floresta densa e escura na tentativa de despistar um algoz que a notou. O desespero era tamanho que não havia tempo para derramar lágrimas por aqueles que foi obrigado a deixar para trás na praia. Ninguém esperava por uma recepção calorosa assim, somente um novo lar. Suas asas batiam fervorosas, mantendo o equilíbrio para não tropeçar, enquanto continuava correndo pela mata desconhecida.

Atraída pela única luz em meio à escuridão, a fada Rade, parou diante de duas construções em madeira. Olhou para cada uma delas, e soube qual deveria adentrar quando notou a reação e gritos dos seres humanos à frente da mais iluminada. Obrigado a entrar pelos fundos da edificação que restou, um galpão abandonado com uma diversidade de maquinário acumulando poeira em meio as palhas e chapas de metal, Rade encolheu as asas e se escondeu. Ficou em silêncio e abraçou a si mesma, enquanto esperava rever Cile. Esperava que estivesse viva, e tentava parar com a tremedeira para pensar alguma forma de voltar até a embarcação.

A fada não ouvia mais gritos vindos do lado de fora havia algum tempo, e se perguntava se outros teriam conseguido escapar da nova desgraça que os atingira. Sobreviveram às tempestades em alto mar, aos dias de sol escaldante, à falta de comida a bordo e às doenças apenas para morrerem na praia? E a promessa de uma vida de fartura, segura e feliz?

Um baque abriu a porta principal do edifício, como quem quisesse alertar de propósito afada.

— Fadinha exilada, onde está você? — provocou o algoz, quase como se brincasse com uma criança — está escuro aqui, vou acender as luzes para te ver melhor.

O algoz pressionou um gatilho colado as luvas de suas mãos fazendo com que fogo fosse disparado em direção ao teto velho de madeira e palha seca, iniciando um incêndio.

A iluminação do fogo permitiu a fada vislumbrar pelo canto dos olhos o algoz loiro de cabelos espetados. Trajado de uniforme branco com diversas manchas de sangue. Seu rosto sorria mais a cada passo lento que dava dentro do galpão, e as mãos flamejantes tocavam sem pressa os lugares que observava minuciosamente.

— Quanto de calor precisa para os insetos sairem do meio da lenha?

O homem parou de andar um instante e ajeitou o cilindro metálico amarrado as costas de onde saia o fio conectado ao gatilho de fogo nas mãos. O fogo se espalhou por todos arredores enquanto alcançava ao centro da instalação e observava todos os quatro cantos.

O calor e reflexo da luz avermelhavam as cores da fada, não vendo mais alternativas, além de sair de seu esconderijo atrás das chapas largas e tortas de metal. A esperança de uma nova vida com sua amada Cile se encerrara. As memórias agora transformavam sua tristeza em raiva, e a ideia de vingar a amada e seus companheiros de viagem talvez fosse a única saída decente ao invés de apenas agonizar no fogo do inimigo. Entretanto, antes que pudesse se decidir, o calor fez seu corpo mexer-se e bater com o pé na placa de metal.

O algoz apontou o gatilho em direção ao som de lata quando, de repente, ouviu outro som e uma voz feminina acima.

— Pare agora mesmo seu maníaco — gritou do alto uma mulher, de pé em cima do passadiço encarava lá embaixo com um olhar severo.

— Veja que bela companhia temos aqui. Minhas ordens não são para matar mercenários como você hoje, mas há espaço para exceções — precisou parar a conversa, pois a fadaaproveitou do breve diálogo para saltar fora do esconderijo e correr.

No momento que o algoz direcionou seu gatilho, a garota ruiva exalou um brilho azul junto a um pequeno gesto de mãos, pegando impulso e saltando do passadiço para cair chutando o ombro do adversário.

— Todas as raças têm o direito de viver livres aqui!

O homem foi arremessado no chão mas conseguiu dar uma volta com o corpo para cair de lado, apontando o gatilho para a mercenária enquanto reerguia-se.

— Dane-se a fada. Morra! — uma torrente de chamas foi disparada.

Por um instante tudo pareceu mais lento, da velocidade da fala a combustão do gás em fogo que saia aparentemente da mão do homem, ganhando tempo e tranquilidade para a mercenária de aura azul desviar. O fogo passou reto até as paredes secas e empoeiradas do galpão, garantindo uma explosão e terminando de causar o incêndio generalizado por toda estrutura.

A mercenária voltou a olhar para frente e socou o rosto do homem antes de ouvir um ranger acima. O passadiço estava cedendo as chamas e prestes a cair, o que ocasionaria uma onda de chamas até a saída e não conseguiria escapar se continuasse por mais tempo. Com fé de que seu trabalho estaria concluído com a queda, concentrou-se em correr para a saída do galpão, deixando o algoz para trás.

Do lado de fora, conseguiu facilmente identificar os rastros deixados pela fada que correu em disparada para o interior do país de Lizar através da plantação. A mercenária poderia ter auxiliado a fada a se encontrar, mas compreendia o quão natural era para os recém-chegados se assustarem com todos. Assistiu o telhado do galpão desabar, ignorando as pessoas da casa que olhavam e apontavam para a direção dela. Os olhos estavam ocupados com o belo espetáculo de luzes na noite pouco estrelada. Quando a última parte do teto caiu, a garota deu meia volta para partir rumo a mesma direção da fada.